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O que a pesquisa mediu quando testou osteopatia na dor lombar (e em quanto tempo)
Uma meta-análise de 15 estudos e um ensaio com 186 pacientes respondem duas perguntas: funciona quanto, e em quantas semanas.

Depois de entender que o laudo não é a sentença e que terapia manual entra dentro de um pacote com exercício, sobra a pergunta prática: funciona quanto, e em quanto tempo?
Esse é o post mais técnico do blog, e ele é de propósito o último da série. Número sem contexto vira propaganda, e o contexto são os posts anteriores.
O que a evidência diz
A meta-análise de 2014
Heike Franke, Jan-David Franke e Gary Fryer publicaram no BMC Musculoskeletal Disorders, em agosto de 2014, uma revisão sistemática com meta-análise sobre tratamento manipulativo osteopático na dor lombar inespecífica. A busca foi feita em outubro de 2013, sem restrição de idioma: 307 estudos identificados, 31 avaliados, 16 excluídos, 15 revisados (dez sobre dor lombar inespecífica, três sobre gestantes e dois sobre mulheres no pós-parto), sendo 12 deles com baixo risco de viés. A qualidade da evidência foi avaliada pelo sistema GRADE, e os desfechos medidos foram dor e estado funcional aos três meses após o tratamento.
foi a diferença média a favor do tratamento osteopático na escala de dor, aos três meses, com evidência de
qualidade moderada (intervalo de confiança de 95%: -20,00 a -5,82)
Evidência de qualidade moderada. Franke, Franke e Fryer, 2014.
Ver como tabela
| Comparação | Estimativa (pontos na escala de dor) | IC 95% |
|---|---|---|
| Dor lombar aguda e crônica | -12,91 | -20,00 a -5,82 |
| Só dor lombar crônica | -14,93 | -25,18 a -4,68 |
Os outros resultados:
- Dor lombar inespecífica aguda e crônica: dor com diferença média de -12,91 (-20,00 a -5,82) e estado funcional com tamanho de efeito de -0,36 (-0,58 a -0,14), evidência de qualidade moderada
- Somente dor lombar crônica: dor -14,93 (-25,18 a -4,68) e função -0,32 (-0,58 a -0,07), qualidade moderada
- Gestantes: dor -23,01 (-44,13 a -1,88), com evidência de qualidade baixa
- Pós-parto: dor -41,85 (-49,43 a -34,27), com evidência de qualidade moderada
A conclusão dos autores: foram encontrados efeitos clinicamente relevantes para redução de dor e melhora do estado funcional aos três meses, e recomendam-se ensaios randomizados maiores, de alta qualidade e com grupos de comparação robustos.
O ensaio que mediu tempo e recaída
A segunda pergunta, o tempo, tem resposta num ensaio clínico randomizado, duplo-cego e com grupo de tratamento simulado: o OSTEOPATHIC Trial. John Licciardone e Subhash Aryal publicaram na Manual Therapy, em dezembro de 2014, a análise de 186 pacientes com dor lombar crônica de intensidade alta (50 ou mais numa escala de 0 a 100).
Resposta clínica foi definida de forma exigente: redução de 50% ou mais na dor em relação ao início.
- 65% dos pacientes do grupo de tratamento osteopático alcançaram resposta clínica inicial, contra 45% no grupo de tratamento simulado (risco relativo 1,45; intervalo de confiança de 95%: 1,11 a 1,90)
- O tempo mediano até a resposta inicial foi de 4 semanas
- Entre quem respondeu antes da semana 12, recaíram 24% no grupo osteopático contra 51% no grupo simulado (risco relativo 0,47; 0,26 a 0,83)
- Na semana 12, 52% do grupo osteopático mantinha resposta clínica, contra 25% do grupo simulado (risco relativo 2,04; 1,36 a 3,05)
186 pacientes com dor lombar crônica intensa. Licciardone e Aryal, Manual Therapy, 2014.
Ver como tabela
| Tratamento osteopático | Tratamento simulado | |
|---|---|---|
| Resposta inicial (dor caiu 50% ou mais) | 65% | 45% |
| Recaída entre quem respondeu | 24% | 51% |
| Resposta mantida na semana 12 | 52% | 25% |
Os autores observam que o efeito de curto prazo foi puxado pelos respondedores estáveis, aqueles que não recaíram.
O que isso quer dizer pra você
Sobre tamanho: os efeitos existem, foram medidos, e são descritos como clinicamente relevantes pelos autores da meta-análise. Também não são milagrosos, e a própria meta-análise pede estudos maiores. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Sobre tempo: o dado mais útil pra expectativa é a mediana de 4 semanas até a resposta no ensaio com dor crônica intensa. Isso ajuda a calibrar duas conversas comuns no consultório: a de quem espera resolver tudo na primeira sessão, e a de quem desiste na segunda porque "não resolveu ainda".
Sobre manutenção: o número da recaída é o que mais me interessa clinicamente. Responder e manter é outra coisa que responder e voltar ao ponto de partida, e é aí que entra o que a diretriz do NICE chama de pacote com exercício, tema de outro post deste blog.
O que nenhum desses números diz: quanto você vai melhorar. Média de estudo é média de estudo. O que se faz numa avaliação é justamente olhar o seu caso, definir o que testar primeiro e reavaliar com data marcada, em vez de vender um número.
Fontes
- Franke H, Franke JD, Fryer G. Osteopathic manipulative treatment for nonspecific low back pain: a systematic review and meta-analysis. BMC Musculoskeletal Disorders, 30 de agosto de 2014. PubMed 25175885
- Licciardone JC, Aryal S. Clinical response and relapse in patients with chronic low back pain following osteopathic manual treatment: results from the OSTEOPATHIC Trial. Manual Therapy, dezembro de 2014. PubMed 24965494
- NICE. Low back pain and sciatica in over 16s (NG59), item 1.2.7. nice.org.uk/guidance/ng59