Pular para o conteúdo
Victória LuzOsteopatia Fale com a especialista

Blog / Mito

O que o laudo mostra não é necessariamente a causa da sua dor

Abaulamento, degeneração, protrusão. Uma revisão com 3.110 pessoas sem nenhuma dor encontrou esses achados na maioria delas. O que isso muda na leitura do seu exame.

Imagem editorial produzida para este texto. Não é paciente nem consultório real.

Victória Bretanha Luz

Fisioterapeuta formada pela Universidade Católica de Pelotas, osteopata formada pela Escola de Osteopatia de Madrid

Mito · 7 min de leitura · 2026-09-25

A cena se repete no consultório. A pessoa chega com o laudo da ressonância na mão, às vezes ainda dobrado no envelope, e repete a palavra que ficou na cabeça: abaulamento, degeneração, protrusão, hérnia. Muitas vezes já ouviu de alguém que vai precisar operar. E a primeira coisa que ela pergunta, antes de qualquer outra, é se ainda tem conserto.

O exame não é mentira. Ele mostra o que está ali. O problema é o que a gente conclui automaticamente dele, e é aí que a pesquisa dos últimos anos tem sido bastante clara.

O que a evidência diz

Em 2015, um grupo liderado por Waleed Brinjikji publicou no American Journal of Neuroradiology uma revisão sistemática que reuniu 33 artigos com imagens de coluna de 3.110 pessoas sem nenhuma dor nas costas. A pergunta era simples: o que aparece na coluna de quem não sente nada?

96%

das pessoas de 80 anos sem dor tinham degeneração de disco na imagem. Aos 20 anos, já eram 37%

Brinjikji et al., AJNR, abril de 2015

Achados de imagem em pessoas sem dor nas costas, por idade
Achados de imagem em pessoas sem dor nas costas, por idadeAos 20 anosAos 80 anos0%25%50%75%100%Degeneração de discoDegeneração de disco, Aos 20 anos: 37%37%Degeneração de disco, Aos 80 anos: 96%96%Abaulamento de discoAbaulamento de disco, Aos 20 anos: 30%30%Abaulamento de disco, Aos 80 anos: 84%84%Protrusão de discoProtrusão de disco, Aos 20 anos: 29%29%Protrusão de disco, Aos 80 anos: 43%43%Fissura anularFissura anular, Aos 20 anos: 19%19%Fissura anular, Aos 80 anos: 29%29%

Revisão sistemática de 33 artigos, 3.110 pessoas assintomáticas. Brinjikji et al., AJNR, abril de 2015.

Ver como tabela
Aos 20 anosAos 80 anos
Degeneração de disco37%96%
Abaulamento de disco30%84%
Protrusão de disco29%43%
Fissura anular19%29%

Os números por faixa de idade, todos em pessoas assintomáticas:

  • Degeneração de disco: 37% aos 20 anos, chegando a 96% aos 80
  • Abaulamento de disco: 30% aos 20 anos, 84% aos 80
  • Protrusão de disco: 29% aos 20 anos, 43% aos 80
  • Fissura anular: 19% aos 20 anos, 29% aos 80

A conclusão dos autores é direta: boa parte desses achados é provavelmente parte do envelhecimento normal e não tem relação com dor, e eles precisam ser interpretados dentro do quadro clínico da pessoa.

Agora o outro lado, porque metade da história não serve. No fim do mesmo ano, o mesmo grupo publicou uma meta-análise comparando 3.097 adultos de até 50 anos, com e sem dor lombar. Alguns achados são mais frequentes em quem tem dor: abaulamento de disco (razão de chances 7,54), espondilólise (5,06), extrusão de disco (4,38), alteração de Modic tipo 1 (4,01), protrusão (2,65) e degeneração de disco (2,24). E outros não mostraram associação com dor: fissura anular, espondilolistese e alteração de Modic em geral.

Quanto cada achado é mais frequente em quem tem dor (até 50 anos)
Quanto cada achado é mais frequente em quem tem dor (até 50 anos)0,5125102050sem efeitoAbaulamento de disco: 7,54 (IC 95%: 1,28 a 44,56)Abaulamento de disco7,54 [1,28; 44,56]Espondilólise: 5,06 (IC 95%: 1,65 a 15,53)Espondilólise5,06 [1,65; 15,53]Extrusão de disco: 4,38 (IC 95%: 1,98 a 9,68)Extrusão de disco4,38 [1,98; 9,68]Modic tipo 1: 4,01 (IC 95%: 1,10 a 14,55)Modic tipo 14,01 [1,10; 14,55]Protrusão de disco: 2,65 (IC 95%: 1,52 a 4,62)Protrusão de disco2,65 [1,52; 4,62]Degeneração de disco: 2,24 (IC 95%: 1,21 a 4,15)Degeneração de disco2,24 [1,21; 4,15]Fissura anular: 1,79 (IC 95%: 0,97 a 3,31)Fissura anular1,79 [0,97; 3,31]Modic (qualquer): 1,62 (IC 95%: 0,48 a 5,41)Modic (qualquer)1,62 [0,48; 5,41]Espondilolistese: 1,59 (IC 95%: 0,78 a 3,24)Espondilolistese1,59 [0,78; 3,24]razão de chances, escala logarítmica. Intervalo que cruza 1 = sem associação

Meta-análise de 14 estudos, 3.097 pessoas. Brinjikji et al., AJNR, dezembro de 2015.

Ver como tabela
ComparaçãoEstimativa (razão de chances)IC 95%
Abaulamento de disco7,541,28 a 44,56
Espondilólise5,061,65 a 15,53
Extrusão de disco4,381,98 a 9,68
Modic tipo 14,011,10 a 14,55
Protrusão de disco2,651,52 a 4,62
Degeneração de disco2,241,21 a 4,15
Fissura anular1,790,97 a 3,31
Modic (qualquer)1,620,48 a 5,41
Espondilolistese1,590,78 a 3,24

Ou seja: não é que a imagem não diga nada. É que ela sozinha não fecha o diagnóstico.

Não é uma leitura isolada. O NICE, o instituto que define o que o sistema público de saúde britânico deve oferecer, é explícito na diretriz de dor lombar e dor irradiada (NG59, item 1.1.4): não oferecer exame de imagem de rotina fora do serviço especializado. O item 1.1.6 completa: no serviço especializado, pedir imagem apenas se o resultado tiver chance de mudar a conduta.

O que isso quer dizer pra você

Três coisas práticas.

Primeira: laudo não é sentença. Se um achado aparece em 84% das pessoas de 80 anos que não sentem nada, ele não pode ser, por si só, a explicação da sua dor.

Segunda: o exame descreve estrutura, não dor. A dor tem endereço, horário, o que piora e o que alivia. Nada disso aparece na imagem. Aparece na avaliação, quando se testa movimento por movimento e se compara um lado com o outro.

Terceira: o exame continua sendo útil, e ninguém está dizendo pra jogar fora. Ele é a ferramenta certa quando existe suspeita específica, e é o médico quem pede e interpreta. O que muda é o peso que ele tem na sua cabeça.

Na prática, numa avaliação de osteopatia o laudo entra como uma informação entre várias, não como o roteiro. A pergunta que guia é outra: qual movimento reproduz a sua dor, o que está restrito, o que está sobrecarregado compensando.

Fontes

  • Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. American Journal of Neuroradiology, abril de 2015. PubMed 25430861
  • Brinjikji W, Diehn FE, Jarvik JG et al. MRI findings of disc degeneration are more prevalent in adults with low back pain than in asymptomatic controls: a systematic review and meta-analysis. American Journal of Neuroradiology, dezembro de 2015. PubMed 26359154
  • NICE. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59), itens 1.1.1, 1.1.4 e 1.1.6. Publicada em 30/11/2016, última atualização em 29/07/2026. nice.org.uk/guidance/ng59

Agendamento pelo WhatsApp

Uma mensagem no WhatsApp é o primeiro passo.Reconheceu a sua dor neste texto?

Fale com a especialista